Coisas da vida
Nós éramos jovens, na época estávamos concluindo o curso superior, tantos planos: queríamos nos casar, ir para o exterior, começar uma nova vida, nós dois... Mas as coisas foram desabando, com o tempo fomos percebendo que não queríamos a mesma coisa.
Nossos encontros foram diminuindo, as provas da faculdades nos afastou um pouco, passei a me dedicar totalmente à medicina, e ela as suas prioridades, sabíamos que nada estava como antes.
Um dia ela apareceu em meu apartamento parecia uma flor, irradiava beleza e perfume pelos corredores do prédio, disse-me que ia para Paris com a prima, tão logo terminasse seu curso, havia conseguido um emprego por lá. Conversamos muito sobre nós, sobre o que queríamos para o futuro, sempre fomos sinceros, e sabia que sentiria saudades, pois a amava, porém sabia também que era uma oportunidade para ela crescer profissionalmente, e poderíamos manter contato, quem sabe reatar o namoro com o tempo.
Todavia nem tudo aconteceu como gostaríamos, quando concluí meus estudos, perdi o contato com Helena, e passei a me dedicar totalmente ao meu consultório e meus pacientes, tinha poucos amigos, alguns colegas de profissão e os poucos dos que ainda mantinha contato depois da faculdade. Mudei-me para um apartamento mais perto do consultório, devido ao trabalho quase nunca parava em casa, quase não recebia visitas em casa. O único amigo que me visitava era o Leo, primo de Helena, apesar do parentesco dele com minha ex-namorada, não falávamos muito da vida de Helena e de como ela estaria vivendo.
Nossa amizade começou muito antes de Helena aparecer na minha vida, então tínhamos assunto de sobra para nos manter ocupados. Sempre que podia saía para jantar com ele e sua namorada Taís que, aliás, estava grávida do primeiro filho de Leo. Imagine sua felicidade.
Eu não sabia que minha vida calma e sossegada ia mudar repentinamente. Certo dia Taís apareceu em meu apartamento, achei estranho, pois apesar de conhecê-la há algum tempo, ela nunca tinha me ligado ou aparecido em minha casa sem o Leo.
Ela estava desesperada, os olhos vermelhos de tanto chorar, quando conseguiu se acalmar ela me contou o que a estava afligindo, meu amigo Leo havia saído para fazer seu turno no hospital, mas no meio do caminho sofrera um acidente com seu carro, estava internado em estado grave.
Não poderia abandoná-la naquela situação, e Leo era mais que um amigo, como sou filho único, ele era o mais perto de um irmão que eu poderia ter então minha vida passou a se resumir entre meu consultório e o hospital em que Leo estava internado. Taís estava entrando no sétimo mês de gravidez, como não tinha família por perto, tratei de ajudá-la neste momento difícil.
Apesar do bom atendimento que estava recebendo, Leo não reagia, seu quadro de saúde ainda era grave, sempre que o visitava tentava animá-lo.
“Você vai melhorar, precisa reagir Leo, seu filho precisa de você amigo”
Taís não saia do seu lado, Leo falava poucas palavras, às vezes sem sentido, o médico já nos tinha informado que seu caso era grave e sem muitas esperanças. Helena apareceu no hospital algumas vezes, vê-la de novo reanimou lembranças que já estavam esquecidas dentro de mim, ela estava linda, os cabelos grandes e loiros, os olhos que me encarava tão docilmente.
- Como ele está Pedro?
- Ainda não reagiu, os médicos fizeram tudo que podiam, agora ele precisa reagir...
Foi difícil mas consegui conter minhas emoções em relação a Helena, até porque o ambiente e a situação em que estávamos não era capaz de criar um romance, e eu não a conhecia mais, as pessoas mudam com o tempo.
Foram dias difíceis, porém numa manhã de chuva, enquanto Taís tomava café na sala de visita do hospital, Leo acordou chamando-a, estava sucumbido, ao me ver segurou minhas mãos, que estavam estendidas em seu leito, enquanto eu tentava não dormir sentado na cadeira ao seu lado.
Leo, você quer falar com ela, vou chamá-la...
Espere Pedro, somos amigos não é?...
Você sabe que sim, mas que amigo para mim.
Quero que faça um favor, que me prometa que vai cumprir....
Calma amigo, nem melhorou e já está me pedindo favores, você sabe que farei o que .....
Eu sei que não vou conseguir.... Sou médico e sei que não estou.....promete que vai ajudar a Taís....
Leo, pare de falar nisso, você vai melhorar....
Escute... Logo meu filho vai nascer.... Sabe que ela não tem parentes na cidade...Vai ficar sem saber o que fazer quando eu.....
Sabe que eu jamais a deixaria passar por isso sozinha...
Prometi que não iria deixar Taís passar por isso sozinha, que ajudaria no que fosse preciso, mas estava torcendo para não precisar cumprir a promessa, afinal queria que Leo melhorasse, e saísse daquele hospital.
No final de semana Leo nos deixou, os sonhos de Taís haviam sido desfeitos naquele dia, eu cumpri a promessa feita a meu amigo. Mantive contato com Taís, acompanhei o nascimento do bebê, uma menina chamada Lyene.
A última vez que vi Helena foi dois meses depois do nascimento de Lyene, descobri que meus sentimentos não eram os mesmos, meu coração não reagiu ao vê-la e apenas conversamos durante o almoço. Isso já faz dez anos.
Desde então faz um ano que Taís e eu estamos casados, o fato é que acabei me apaixonando por ela, não estou traindo meu amigo Leo, acredito que era o que ele queria, cumprir a promessa que fiz a ele, Lyene está crescendo num lar, Taís está amparada e feliz.
Tenho certeza que cada um de nós fizermos nossas escolhas, e se me perguntasse o que faria de diferente, prefiro dizer que tudo na minha vida aconteceu como deveria acontecer, é claro que desejaria que Leo não tivesse nos deixado, mas também sei que hoje minha vida como marido e pai é a coisa mais importante que conquistei nessa vida. Então prefiro viver o presente momento, estou ansioso pela chegada do menino que nascerá daqui cinco meses, espero que ele seja tão esperto e saudável como Lyene.
